Revistas de cinema em BsAs
por Moreno Osório
Cheguei em Buenos Aires com uma lista de things to do. Como o dinheiro acabou, algumas vão ficar para uma próxima. Outras, por serem de graça ou baratas, deu pra cumprir. Uma delas era dar uma olhada na El Amante, uma revista mensal de cinema muito parecida visualmente (apesar da capa colorida, ela é praticamente toda em preto e branco) e em termos de conteúdo com a Teorema, de Porto Alegre.
Comprei a edição de dezembro, a número 199. A capa dá destaque para o novo filme do Robert Rodriguez, Planet Terror, que deve estrear em seguida nos cinemas porteños. O texto é bem elogioso e cita uma cena de Gremlins 2 em que os monstrinhos invadem um cinema e queimam a película para descrever o impacto e a representatividade da obra de Rodriguez: “cada explosión, cada tiro de metralia, cada shock visual provocado por la violencia representada en la película parecen hacer vibrar, atrofiar o quebrar la película misma”.
A edição também traz um especial sobre o ciclo de cinema 25 anos de cinema na democracia, que está em cartaz por aqui. Uma das matérias reconta as últimas duas décadas e meia da história argentina pelo viés cinematográfico, destacando erros e acertos das políticas públicas para o cinema, tendências que deram certo e errado, e, claro, filmes importantes do período. Algumas dessas obras estão sendo exibidas durante esta semana no espaço INCAA KM 0 (uma das salas do Instituto Nacional de Cine e Artes Audiovisuales destinadas apenas ao cinema argentino). No sábado, vamos conferir o Memorias del Saqueo.
Há ainda pelo menos outras duas revistas sobre cinema disponíveis nas bancas de Buenos Aires. A Haciendo Cine (HC), que é mais genérica e menos especializada que a El Amante, e a Cinemania, que parece ser um condensado de matérias e entrevistas oferecidas por agências internacionais.
Em Santa Cruz de la Sierra, última escala da nossa viagem, compramos quatro diários que circulam na cidade mais rica da Bolívia. Todos, como não poderia deixar de ser, dão amplo destaque para o referendo sobre a autonomia do departamento. E todos dão suas alfinetadas no governo de Evo Morales. Em uma das chamadas de sua capa, o El Mundo destaca que “el ‘populismo econômico’ de Evo provocará inflación de 16%”. A mesma postura irônica aparece na chamada principal, na qual o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, parece ter duas orelhas como as do Mickey Mouse, com a manchete “Chávez rata o ratón”.
Além da manchete principal sobre a tentativa de o governo “frear” o referendo, o
A mesma idéia do selo está na capa do El Día. De forma mais contida, o jornal conta os dias para o referendo, e não “para a autonomia”, como o La Estrella. Foi o único diário que deu espaço para o futebol na foto principal da capa. O destaque foi o atacante boliviano Marcelo Martins, definido pelo jornal como “matador da Libertadores”. Ao marcar na partida contra o argentino San Lorenzo, o atleta do Cruzeiro alcançou a artilharia isolada da competição. Outro assunto esportivo que teve destaque em todas as edições foi a polêmica em relação aos jogos realizados em cidades de altitudes elevadas.
Curiosamente, o
O conteúdo das matérias é muito parecido. A edição do El Diário, único formato standard dos três, é a mais pobre. No geral, a diagramação deste jornal é mais conservadora, apresentando blocos de textos grandes. Na mesma página do porta-voz, há retrancas secundárias sobre outra polêmica no país, o referendo sobre a autonomia de Santa Cruz de La Sierra, assunto destacado nas três capas. El Diario foi o que mais trouxe conteúdo para entender a crise. Contudo, nós, que caímos de pára-quedas na Bolívia ainda não entendemos o que acontecerá caso o Sim vença, já que o governo de Evo não considera legal a consulta popular.
Mais moderno, o tablóide La Prensa apresenta fotos maiores e uma edição melhor. Na matéria do porta-voz do governo, há uma retranca com trechos da sua carta de renúncia e box com a repercussão entre políticos. O jornal também traz infográficos bem feitos, como no La Razón. Na capa, tem foto de manifestantes cruceños preparando-se para marcha que ocorrereu no dia 2 a favor da autonomia de Santa Cruz, ou seja, contra a política de Evo. Os cruceños reclamam, entre outras coisas, da proibição de exportação de vários produtos, como o azeite, ação que deve provocar 300 mil empregos, segundo o secretário-geral da prefeitura de Santa Cruz, Rolando Aguilera. O referendo é dia 4 de maio. Amanhã, único dia que teremos para conhecer a cidade, poderemos sentir o clima da polêmica.
A manchete do La Rázon também é sobre a renúncia de Contreras, mas a foto principal da capa é das filmagens do novo 007, rodado na litorânea Antofagasta, Chile. A notícia é sobre um chileno que foi preso porque invadiu o set de filmagem para protestar contra o fato de o território chileno aparecer no roteiro como boliviano. Loucos por um saída para o mar, perdida para os chilenos na Guerra do Pacífico, os bolivianos do jornal de La Paz aproveitaram o gancho para escrever o título “Ecos del mar boliviano em el 007”. Outro destaque da capa é a polêmica sobre a “falsedad” do Flamengo que, baseado na suposta morte de um jogador em Potosi, retoma a discussão sobre a proibição de jogos de futebol em altitudes elevadas. Para a Bolívia, que tem até uma Comissão de Defesa da Altura, a atitude do time brasileiro é um absurdo.
Depois de passar uma semana “ilhados” em San Pedro de Atacama e em altiplanos bolivianos, voltamos a ter contato com os diários chilenos.
Entusiasmado com o comportamento da juventude de Iquique, já ia esquecendo de comentar sobre um jornal que compramos na rodoviária de Calama, onde nosso ônibus fez uma breve parada antes de seguir para San Pedro.
Antofagasta: cidade sem graça, jornais sem graça. Ao contrário de quase todas as cidades pela quais passamos, os cerca de 280 mil antofagastinos não contam um diário popular (pelo menos não encontramos) para lhes satisfazer sua sede de bizarrices. Não que o
O mesmo tédio aparece no La Estrella del Norte. Destaque para as duas páginas dedicadas à programação de missas de Páscoa em todas as paróquias da cidade. Chatices cristãs à parte, a edição do dia 22 de março do Estrella deu bastante espaço para as filmagens do novo filme do Agente 007, que será rodado na região a partir do próximo dia 30. A cobertura de ambos os periódicos (o Mercurio também está contando os dias para a chegada de Daniel Craig) tem cara de estar sendo intensa, com matérias diárias procurando diferentes ganchos. O frenesi é tanto que todos já devem saber o motivo da escolha da região de Antofagasta pela produção do filme, pois nenhum jornal explica.
O único jornal que achamos na nossa breve passagem por Vicuña se define como “a última palavra em informação”, embora seja semanal. O Elqui Semanario é um mistério para nós. Encontramos um exemplar de 3 a 20 de março na pousada onde ficamos. Com seis folhas grampeadas e uma aparência tosquíssima, não sabemos se ele é uma cópia ou se é distribuído assim mesmo. Destacamos as quase duas páginas dedicadas à visita de Bachelet à cidade de 12 mil habitantes e as notícias policiais espalhadas pelo jornal. As duas são sobre assaltos a mão armada.
Indo mais ao norte do Chile, em Copiapó, encontramos nas bancas o El Diário de Atacama e o Chañarcillo. Pelas fotos que os dois apresentam nas suas capas até parece que chove por aqui.
Tão regional que não sabe se Copiapó tem ou não acento, pois na capa do jornal o nome da cidade está escrito (bem grande) de uma forma e dentro, de outra. Já o El Diário parece ser um jornal mais completo, apesar de a capa chamar para as mesmas notícias policiais do Chañarcillo. As editorias são mais estruturadas, e a diagramação é melhor.
Sem más delongas, vamos às notícias. A maravilha da vez é o El Ovallino, jornal popular da região de Coquimbo. O diário traz estampada na capa de 17 de março a bunda de Maura Rivera, ex-integrante do programa “Rojo”, que vai ter de usar roupa “más recatada” no seu novo programa de TV.
O texto (com a mesma imagem) foi reproduzido na íntegra no El Día, jornal do mesmo grupo do El Ovallino. Mesmo com a foto da modelo e “opinóloga” Pamela Diaz na capa, parece ser mais sério. A propósito, a chilena garante que o pisco – considerada a bebida do Chile – é peruano. Sempre ouvimos falar que era chilena, mas pela nota há uma “briga” entre os dois países pela sua origem.
A frase “se atreve y lo dice todo” acompanha o título do
Se o El Observador parece ser meio careta, o
Essa é a capa do
Em formato tablóide (um pouco maior que a Zero Hora),
Esta é a edição de hoje do diário popular de Santiago, que trata de assuntos diversos, mas com uma linguagem com a qual não estamos acostumados no jornalismo brasileiro. Muitos adjetivos, como “maldita” e “ardientes”, e expressões como “plis” e “carajo”. Traz notícias bizarras, como a da mulher portadora de doença mental que ficou dois anos sentadas num vaso sanitário. Sim, dois anos! E o pior é “que não tinha nada para ler”, diz a linha de apoio da notícia. Assim mesmo, como se fosse. piada. Acessem o
Dica da querida Rossana, minha colega que morou em Santiago por seis meses no ano passado, 


