Disneylândia


por Marcela Donini

Um alemão e uma brasileira sentados num restaurante chinês em Buenos Aires.

Essa cena bem poderia ser um verso da música Disneylândia, de Arnaldo Antunes, gravada também por Jorge Drexler. Resume o intercâmbio cultural pelo qual passei quase todos dias aqui em Buenos Aires, especialmente durante as aulas de espanhol, que terminaram hoje.

Filho de imigrantes russos casado na Argentina com uma pintora judia, casou-se pela segunda vez com uma princesa africana no México.

Na primeira turma, éramos eu, um aposentado australiano, uma alemã de 19 anos e uma austríaca de 25. E um professor argentino. Depois, juntaram-se a nós dois alemães, cada um com seus 20, 20 e pouquinhos.

Enquanto eu vim movida pela paixão pela cidade, por toda a movimentação cultural e de lazer que oferece e segurança, os europeus só enxergam uma cidade suja, o que corresponde à realidade, e um pouco perigosa, o que também lá é verdade…

Lanternas japonesas e chicletes americanos nos bazares coreanos de São Paulo.

Obviamente que, se comparada com Porto Alegre, Buenos Aires ainda me parece mais segura. Já quando se compara à Europa ou aos EUA… Elisabeth, da Áustria, teve aula prática sobre a questão da segurança e como se chama, em espanhol, delegacia, polícia e roubo no primeiro dia aqui. Deixou sua bolsa em cima da mesa de um bar para ir ao banheiro e, quando voltou, já era. Teve que ir à comisaría, hacer una denuncia. Terry, norte-americano, colega no final do curso, foi vítima de furto no ônibus. Preju de 600 pesos argentinos + cartão de crédito que estavam em seu bolso.

Multinacionais japonesas instalam empresas em Hong-Kong e produzem com matéria prima brasileira para competir no mercado americano.

Cada vez que chegam cada um em sua casa, Michael (da Austrália) e Paula (Alemanha), se apavoram com a quantidade de trancas que têm de abrir e fechar. Cada ida ao súper, incomoda as européias porque lhes dão muitas sacolas plásticas. E para piorar, não há quatro cestos para cada tipo de lixo nos apartamentos em que vivem. É um só. Se quiser reciclar, tem que levar seus resíduos aos contêineres espalhados pelas ruas, porque não tem caminhão de coleta seletiva (nesse ponto, estamos uns passos à frente dos argentinos). Resultado: ninguém recicla.

Relógios suiços falsificados no Paraguay vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.

“E por que tem tantos aparelhos de televisão em uma casa?”

Quando eu falei que, na minha casa, onde vivem cinco pessoas, há seis televisores, acharam que era piada. Elisabeth vê só o noticiário na TV. E só tem 2 canais. “Pra quê mais? Não é possível ver todos mesmo.”

Já a professora argentina, chega em casa e a primeira coisa que faz é… ligar a TV.

Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe na baixada fluminense.

“Hermana latino-americana! Que bueno que estás acá! Estamos llenos de gringos”, brinca. Quando o assunto é corrupção na polícia ou superfaturamento de obras, como a polêmica que atrasa a finalização da reforma e reabertura do Teatro Colón, me sinto super à vontade.

Depois que chineleiam um pouco mais o país latino-americano, aproveitando para dizer que Mar Del Plata es una playa muy fea, Paula diz: “Vocês não devem gostar muito que a gente fale essas coisas, né?”

Ninguém gosta, claro. Especialmente os porteños.

Filmes italianos dublados em inglês com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia.

A fama de arrogantes que se espalha pela América do Sul é sacada nas primeiras aulas pelos gringos. Aqui se ensina a chamar os outros por “vos”, e não “tú”, como na maioria dos outros países latino-americanos e na Espanha. O som do “ll” e do “y” também é diferente. Na hora de falar os verbos no passado, tem que conjugar do jeito mais difícil (yo tuve, vos tuviste, él tuvo…) e não do mamão com açúcar que é o pasado compuesto (yo he tenido, vos has tenido, él ha tenido…), porque não se usa. Não se usa aqui. Na Espanha, na Bolívia e outros lugares, sim.

Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné.

Na segunda turma, outro alemão, Sebastian, e uma senhora escocesa, Olivia. O tema é crise mundial. Fiquei sabendo que, na Grã-Bretanha, os governos estão diminuindo os impostos para estimular o consumo. Aqui, Cristina quer blanquear capitales, e gera polêmica por abrir margem para lavagem de dinheiro.

Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.

Outra turma (a rotatividade é grande por aqui): o norte-americano Terry + a velhinha escocesa - o alemão, que foi embora (depois de contar que o namorado de uma colega de trabalho morreu nos ataques recentes na Índia).

O norte-americano é amigo do Obama! Sim, o novo presidente! O cara é advogado, mora em Houston e é braço-direito do chefe do condado (aprendi que os estados nos EUA são divididos em condados). Enfim, parece ter linha direta com o homem. Ou estava mentindo, mas é uma boa história. Formado em jornalismo, dá aulas de Direito Internacional em uma universidade. É católico e membro do partido democrata. Oli é presbiteriana e não fala muito de política. E eu enchendo os dois de perguntas. Os três, porque a professora, agora outra que parece ver menos TV, também não me escapa.

Pizza italiana alimenta italianos na Itália.

Na última semana, Marina, paulista de 21 anos, recém formada em Administração, se junta a mim, e somos só nós nesta turma. Falar de Lula já não é mais um monólogo, e, inclusive, temos pontos de vista diferentes. A professora que não vê muita TV parece fechar mais com a minha simpatia pelo presidente ex-operário-e-que-fez-algumas-concessões-para-governar.

Mais do que aprender espanhol, aprendi muito sobre história e cultura argentina. Me dei conta de que as trajetórias de nossas independências são bem distintas. Enquanto a nossa foi proclamada pelo filho do Rei (e na escola aprendemos como se tivesse sido um ato muito heróico), os povos do Rio de la Plata pelearan mucho para lograr su liberdad. E têm muito orgulho disso. E se acham _ e não são? _ mais bravos e corajosos do que os brasileiros. E tem inveja de testemunhar os vizinhos encontrando reservas de petróleo adoidado e seu PIB subindo.

Crianças iraquianas fugidas da guerra não obtém visto no consulado americano do Egito para entrar na Disneylândia.

Pessoas que conhecemos (IV)


por Moreno Osório e Marcela Donini

Ele quer cruzar o mundo sem os pés no chão. Yannick posa para fotos pulando em todos os pontos turísticos pelos quais passa. Vai cruzar o mundo fazendo arte, diríamos. Já ele, que desenhou retratos nossos, não se considera um artista. Mas o que é arte, afinal? Em espanhol, ficou difícil discutir com o francês e sua namorada mexicana, Mely, casal que conhecemos durante a viagem ao salar de Uyuni.

Os dois se encontraram em Santiago, onde ela estuda Artes, e ele, Design Gráfico. Não há o que não desperte interesse no casal: desde bolinhas de lã cheias de grãos de milho (peça típica do artesanato boliviano) até como se pronunciam algumas palavras em português. Não seria assim uma forma de se enxergar arte na vida?


Notem que estamos vestindo as cores da bandeira da Bolívia

Além da parceria e da simpatia, nos marcou muito o interesse dos dois pela nossa língua. “Me encanta”, dizia Yannick cada vez que lhes ensinávamos expressões como “muito tri” e “obrigado”. Era muito divertido quando tentava dizer “ai noiti está muiti tri” ou “camionetch”. Durante o aprendizado, “muito tri” virou até “tuti fruti”. Mely demorou, mas conseguiu dizer “o rato roeu a roupa do rei de Roma”.

Esperamos que, durante sua volta ao mundo, os caminhos de Mely e Yannick cruzem novamente com os nossos.

Pessoas que conhecemos (III)


por Moreno Osório

Logo de saída Sergio perguntou se gostávamos de futebol. Dissemos que sim, mas ao longo do dia vimos que a introdução ao assunto foi só uma maneira de quebrar o gelo entre o guia e seus dois únicos turistas. Afinal, um torcedor do Universidad do Chile que não sabe qual foi a última vez que seu time venceu o campeonato nacional, e que havia torcido para o rival Colo Colo em uma partida contra o Boca Juniors na noite anterior não anda acompanhando muito o esporte – o que ele mesmo acabou confirmando mais tarde.

Na verdade, ainda bem que não falamos sobre futebol. Tendo estudado Contabilidade e Administração e pai de cinco filhos, Sergio tinha muito mais a nos dizer do que simplesmente ficar discutindo paixões. Principalmente da sua terra natal, Chañaral, e do Parque Nacional do Pan de Azúcar, que fica a poucos quilômetros da cidade. Com ele aprendemos a observar a formação das rochas, a identificar cactos e alguns animais da fauna local. Mas não ficou por aí. Sergio nos explicou por que a atividade mineira cresceu muito no Chile, e como as multinacionais da mineração estão prejudicando o meio ambiente do país.

No entanto, essas mesmas companhias empregam 30% da população de cerca de 10 mil pessoas de Chañaral, inclusive Sergio. Não que ele fizesse questão. Gostaria mesmo é de viver do turismo, atividade que faz com prazer. Mas com a área cada vez mais competitiva, e com visitantes cada vez mais escassos, o que paga a faculdade de pelo menos um dos seus filhos é mesmo a atividade mineira. De segunda a quinta, tempo em que fica longe da família, Sergio administra o setor de RH de uma multinacional australiana a mais de cinco mil metros de altitude, na cordilheira dos Andes.

Mas Sergio não parece insatisfeito. Inclusive nos falou sobre um amigo que vive reclamando da dificuldade de se trabalhar com turismo, motivo pelo qual não gosta de visitá-lo. Se, de vez em quando, ele puder levar pessoas do mundo inteiro interessadas em ouvir o que tem a dizer sobre sua terra – e ainda ganhar uma boa grana por isso –, Sergio será feliz. Pelo menos foi essa impressão que ficou quando descemos do antigo Jeep 4x4, depois de um dia inteiro passeando em sua companhia.

Pessoas que conhecemos (II)


por Marcela Donini

A única chuvarada que caiu até agora durante nosso roteiro foi em Córdoba, nossa primeira parada. Foi por causa do aguaceiro que conhecemos seu Luiz, funcionário de uma farmácia numa das avenidas principais da cidade argentina. Sob a marquise do estabelecimento, ficamos conversando em portunhol com ele e Facundo, um guri da nossa idade que não entendia uma palavra em português (nem em portunhol) e também trabalhava no local. Seu Luiz mostrou-se um grande apaixonado pelo Brasil, e parece conhecer nosso país melhor que a gente. Foi ao Rio, ao Carnaval de São Paulo e conhece praias do Nordeste.

Enamorado também por sua cidade, nos perguntou várias vezes o que tínhamos achado de Córdoba. Acho que o pouco tempo que ficamos lá e as conseqüentes respostas meio evasivas faziam ele insistir na pergunta, talvez em busca de uma declaração de amor por sua terra. Mas que fique bem claro que estamos falando de Córdoba, não de Buenos Aires. Seu Luiz não fala muito bem da “suja e violenta” capital argentina.

Na conversa, ele arrisca algumas palavras em português e expressões como “puxa vida” e “de jeito nenhum”. Como o papo é idiomas, tenho que dizer que o espanhol é a melhor língua para se xingar as pessoas e solto uns “hijo de puta” e etc. Todos riem. Principalmente Facundo, que finalmente entende algo sem que Seu Luiz tenha que traduzir, como a confusão que o Moreno fez e talvez provoque risadas na dupla até hoje:

- Son un casal? – pergunta Seu Luiz.
Eu e o Moreno respondemos ao mesmo tempo e respectivamente: SIM e NÃO!
“Como não?? Ué…”, pensei em um milésimo de segundo. Então expliquei ao meu namorado (sim, ainda estamos namorando depois dessa) que seu Luiz perguntara se éramos um casal, e não se éramos casados!
- Ah, sim! Disse o Moreno.
Mas aí já era tarde. Facundo fez umas três piadas sobre nosso relacionamento e o fato de o Moreno não querer se casar… Ficamos de voltar a Córdoba na nossa lua-de-mel.

Pessoas que conhecemos (I)


por Moreno Osório

Ele me disse o seu nome, mas não entendi e não quis perguntar de novo. Portanto, para nós, o sujeito alto e quieto que conhecemos em um passeio a mais de 2 mil metros de altura nos Andes de Mendoza ficou sendo apenas o "swedish guy". "From Suécia", ele disse, talvez achando que eu não tivesse entendido o "from sweden" dito antes. Eu havia entendido, mas sei que meu speaking não é dos melhores. Como o dele també não era, acabamos nos entendendo bem. Com 47 anos, o "swedish guy" é um beneficiado do welfare state característico da Europa. Foi carpinteiro durante boa parte da vida (profissão bastante respeitada e bem paga), mas um problema nas mãos fez com tivesse de deixar a atividade. Sem poder exercer a carpintaria, virou professor e começou a ensinar a profissão a alunos de cursos técnicos. Como o salário de professor é menor do que o de carpinteiro na Suécia, o governo paga a diferença. Como eu, o "swedish guy" conhece mais da América Latina do que seu próprio país. Antes da Argentina, já havia dado umas voltas pelo Uruguai. Depois, seguiria até as Cataratas do Iguaçu. Mas nunca foi muito ao norte de Malmö, a terceira maior cidade da Suécia localizada no extremo sul do país. Lá, segundo ele, o tempo é ameno, e vem esquentando ainda mais com o passar do anos. Deve ser mesmo, porque nosso amigo - vestindo apenas uma camisa de mangas compridas - tremia com o frio dos Andes. "It’s scary", dizia ele.